"REVELAÇÃO"
"Ele" chega de mansinho pra não assustar. Chega decidido e até um tanto atrevido, pois não fora convidado. Se faz presente e atuante.
Carrega palheta de tintas com tantos nuances que causaria inveja ao mais célebre pintor, pois com certeza por mais que tentasse, jamais conseguira imprimir tanta beleza de cor em suas telas.
Com o verde quase transparente ao verde-tormenta, "Ele" pincela tenros arbustos e folhagens emaranhadas e presas aos galhos retorcidos de árvores que nos fazem esticar o pescoço pra alcançar o seu topo. E o pincel não para... Colore as flores e a água, que até então parecia parada e incolor, agora brilha num azul-sereno e desliza adaptando-se aos contornos das pedras que ladeiam o riacho, refletindo os galhos pendentes que lhe fornecem sombra.
Sua luz invade tocas e ninhos.
O colorido silencioso desperta. Pios são ouvidos aqui e acolá. Pios em tons e volumes diferentes. De repente um pio mais grave e mais outro estridente. Os sons vão se ajuntando e se misturando. Sem partitura e sem maestro a sinfonia acontece.
"Ele" agora é uma explosão de vitalidade e energia. A sementinha indefesa aprisionada nas entranhas da terra ganha força. Explode vitoriosa e se mostra ao mundo. Frutos amadurecem e pipocam nos galhos, pássaros surgem aos montes, animais abandonam seus esconderijos e borboletas sugam as flores.
Cor e beleza!
Som e alegria!
Vida!
É o momento da grande revelação!
Mas o tempo, mesmo sem pressa, passa feliz.
O "SOL" boceja preguiçoso, se enfraquece e sai de cena, deixando no horizonte um rastro queimado de vermelho.
Ela estava irreconhecível. O brilho dos olhos atrevidos desapareceu e o sorriso maroto também. Uma flor no galho demora alguns dias pra mudar de cor, murchar e despencar no chão. Com Luíza foi tudo muito rápido, a mudança aconteceu de hoje pra amanhã como dizia vovó Vírginia. Luíza afastou-se de tudo e de todos. Não tolerava indagações que a deixavam ainda mais constrangida e arisca. Seu rendimento escolar despencou vertiginosamente. Os professores percebiam-na ausente, olhar parado e perdido.
Andava por onde o pensamento de Luíza? Era o que todos gostariam de saber. Os pais recorreram a uma psicóloga que fracassou. Um "check up" mostrou que a saúde física da garota estava perfeita. Apesar da grande preocupação, a família resolveu dar um tempo, o tempo que ela, no seu silêncio, pedia.
A turma da escola decidiu organizar um baile de máscaras com o propósito de arrecadar fundos para a formatura do final do ano. Todos estavam empenhados nesse trabalho e Luíza também. Sua mãe trouxe-lhe da cidade grande uma fantasia exuberante, a mais bonita que encontrou.
Durante a festa, Luíza permaneceu sentada o tempo todo. Nem a alegria dos colegas nem a alegria da músca conseguiram arrancá-la daquele torpor. A máscara protegia seu rosto molhado pelas lágrimas que não conseguia reprimr.
Num momento qualquer, Luíza levantou-se bruscamente, sua cadeira saltou longe e foi parar no meio do salão. Assim como uma girafa alonga o seu pescoço comprido o mais que pode pra alcançar um fruto bem no alto da árvore, Luíza esticava o seu pescoço, virava a cabeça pra todos os lados e procurava algo...
Feito um robot começa a caminhar cuidadosamente entre o os foliões; esquivando-se de uns, atropelando outros, parece seguir uma trilha já marcada no chão; está tão determinada quanto uma abelha que ao sentir o perfume da flor preferida, encontra-a sem nenhum esforço escondidinha entre galhos e folhagens. Luíza chega ao bar do salão e estanca os passos bem atrás de um jovem mascarado que espera ser atendido. Ali era o ponto final do seu trajeto. Chegou bem pertinho até a ponta do seu nariz tocar-lhe nas vestes; inspirou o ar que o envolvia com tamanha intensidade que o seu arfar fez com que ele se voltasse para trás. Luíza não tinha dúvida. Era ele, Abraçou-o tão apertado quanto suas forças permitiram; puxou-lhe o rosto junto do seu e o beijou com vontade...com determinação...e com prazer. O rapaz com dificuldade conseguiu se desvencilhar daqueles braços, tirou a máscara e dois olhos arregalados apareceram. Teria sido confundido ou estaria diante de uma desvairada?
Luíza arrancou sua máscara também. Um sentimento de magia os envolveu. André não pensou duas vezes. Juntou seu corpo ao dela com sofridão. Uma explosão de sentimentos guardados.
Retiraram-se para um cantinho mais tranquilo onde puderam se entender. André e Luía estudavam na mesma escola e mantinham um namoro quase secreto.
Nesse tempo, o pai de André fora transferido e a família mudou-se para a capital de outro Estado. Os dois mantinham contato diário por emails até o momento em que André recebeu um email mostrando fotos de Luíza abraçada a outro rapaz. Apaixonado, mas inseguro e morto de ciúmes, acreditou nas fotos, não deu explicações e ignorou os emails que recebia.
A inveja de alguém tinha provocado aquele grande equívoco..As fotos que André trazia guardadas no bolso eram de Luíza abraçando seu primo Gustavo numa festa de aniversário. Tudo ficou esclarecido. E uma promessa de confiança selou aquele momento,
O sofrimento causado pela separação Luíza sentiu diluir-se naquele perfume único, exçlusivo que só André exalava. E foi esse perfume que a fez acordar, seguir seu rastro e reencontrar o grande amor da sua vida.
Texto escrito por Hirtis
Atividade sugerida: construir uma trama onde a personagem descobre algo durante um baile de máscaras. Essa descoberta poderá mudar sua vida.
Honório e Amélia formavam um casal bonito.
Ele, um advogado criminalista, muito respeitado nos meios jurídicos pela lisura e competência.
Amélia, uma mulher bonita e elegante, vinha de uma família tradicional paulista, os tais "Barões do café", criada com muito luxo e mimo. Felizmente casara com o homem perfeito, capaz de dar continuidade àquela vida de riqueza e conforto.
Não tiveram filhos. E, apesar da intensa vida social que a posição lhes proporcionava, jantares com ilustres, festas, reuniões... a vida caíra na rotina.
Honório trabalhava além da conta e Amélia compensava a solidão nas compras; tornara-se uma consumidora voraz e compulsiva.
Estava no "shopping", numa loja de grife masculina; comprava um presente a Honório; estava chegando o dia de seu aniversário. Encontrou-se ali, por acaso, com Gustavo, amigo da família. Ele estivera fora do Brasil nos últimos cinco anos, presidindo na Inglaterra uma multinacional.
Cavalheiro, de gosto refinado e expert em moda, foi solicitado pra ajudá-la nas compras. Claro, ele não recusou o convite e o bate-papo continuou num café expresso.
Entre um café e um "cupcake" não só os assuntos foram colocados em dia... Surgiu o convite para um novo encontro... Mais outro... E foi assim que Amélia e Gustavo tornaram-se amantes.
Amélia parecia outra mulher; até as ajudantes do dia-a-dia recebiam um novo tratamento. Rejuvenesceu por dentro e por fora. Vivia cantando. Era uma amante de primeira, dentro e fora de casa. Não podia levantar suspeitas.
Honório que não era bobo nem nada, claro, percebeu a transformação. Mas Amélia era cautelosa, sabia manobrar a situação.
Era quinta-feira, uma tarde mais que especial. Gustava voltava de uma viagem de negócios que durou um mês. Trouxera à amante um belíssimo casaco de vison.
O tal casaco, sonho de consumo de muitas mulheres, tornou-se um pesadelo à Amélia. Como levá-lo pra casa? De jeito nenhum. Mentir ao marido que havia comprado, nem pensar. O coitado estava com dívidas atrasadas; os limites dos cartões de crédito foram estourados por ela.
Pintou-lhe uma idéia brilhante: passou na Caixa Econômica Federal e penhorou o casaco. Conseguiu uma boa quantia em dinheiro. Perfeito!
Em casa, convenceu Honório da sua boa intenção: com dor no coração, penhorara aquele conjunto de esmeraldas, relíquia de família; queria colaborar com o pagamento das contas; não era justo ele estar passando por tais sufocos por conta dos gastos excessivos, que ela, inconsequentemente, provocara com compras desnecessárias.
Até que Honório ficou comovido com o despreendimento de Amélia, num primeiro momento. Sabia o valor efetivo daquela jóia, que pertencera a sua bisavó.
Mas...uma pulguinha instalou-se atrás da sua orelha e ali fixou morada. Milhóes de pensamentos e suposições. Ficou mais atento às saídas da esposa, voltava pra casa em horários diferentes, alterou sua rotina de trabalho...
Numa tarde qualquer, chuvosa e muito fria, Honório telefonou a Amélia. Intimou-a carinhosamente a dar um pulo até o escritório. Convenceu-a. Tinha uma boa novidade. Curiosa como toda mulher, deixou a má vontade de lado e não demorou quase nada pra chegar lá.
Estava ansiosa. Nunca havia acontecido qualquer situação semelhante àquela.
__ Tenho um presente pra você, meu amor. Hoje é um dia especial!
__ Presente, Honório? Será que me esqueci de alguma data importante? Você me deixou encabulada!
Ele entegou-lhe uma caixa grande.
Amélia balançava a caixa, virava, revirava, tentando adivinhar o conteúdo. Nenhum ruído. A excitação aumentou; arrancou bruscamente a fita e rasgou o papel que tão delicadamente ornava a caixa. Dentro da caixa grande havia uma outra menor e uma cartinha; mas era estranho, o papel estava amassado e amarelado. Coisa antiga.
Desprezou o papel dobrado e abriu a caixa menor. Não podia ser! Pálida, sem cor, caiu numa poltrona que, por sorte, estva bem atrás dela, tendo nas mãos... aquele famoso conjunto de esmeraldas.
Honório grita a sua secretária solicitando, com urgência um copo com água.
A funcionária obedece e num instante, assustada, entra na sala vestindo um lindo casaco de vison.
Amélia infarta.
NOTA: O bilhete que Amélia não conseguiu ler, escrito num papel velho e amassado, dizia assim:
A você, Gustavo
meu único amor
Estava sozinha
Mais do que precisava
Mais do que podia dar conta.
Chegou VOCÊ de surpresa
Pegou-me de jeito
Não hesitei, me entreguei
E de pronto te amei.
Um brinde de vinho tinto
Só nós dois nos escombros da lua
Ao sentimento que tanto sinto
À minha vida que é só sua!
(para sempre,
sua Amélia)
S.P.27/maio/1972
Obs. Gustavo querido, guarde-o
sempre juntinho de você
O seleiro José Amaro não voltara pra casa como habitualmente fazia todas as tardinhas. Procurado por amigos e familiares foi encontrado sem vida debruçado sobre seu tamborete e agarrado ao martelo, sua principal ferramenta de trabalho.
Que sina a sua! Fora enterrado sem choro nem comoção.
Sinhá, sua esposa, lacrou a oficina do jeito que estava e ninguém mais entrou lá.
A rotina estabeleceu-se facilmente, pois ela e a filha esquisita até agradeciam a morte do seleiro.
Tudo corria bem até que...
A noite surgiu estonteante de tão bela. Estrelas tantas brilhavam como nunca, causando inveja ao bando de vagalumes que teimavam em competir com elas; a lua de tão cheia parecia que ia explodir feito bolha de sabão, a saparia gemia de felicidade e a coruja agarrada ao galho do pessegueiro tomava conta de tudo.
Sinhá e a filha, sentadas no alpendre, tagarelavam planos, enquanto suas mãos hábeis e ligeiras davam conta das linhas coloridas perpassando no tecido branco e desenhando bordados.
Ouviram sons estranhos que vinham da cozinha. Eram marteladas pesadas e ritmadas, iguaizinhas às que o seleiro desferia no couro.
Agarraram-se e de olhos fechados puseram-se a rezar baixinho... Voltou o silêncio. Passo a passo, as duas caminharam até a cozinha e, acreditem, todo o alumínio da casa estava amassado, destruído e atirado ao chão. A porta continuava trancada e a chave na fechadura intata. Alma do outro mundo?
As duas fizeram às escondidas um buraco grande no quintal onde enterraram todas as peças. O segredo fora guardado.
O tempo correu e aquela sexta-feira amanheceu diferente: o sol estava encoberto por nuvens negras que foram se ajuntando num bloco só. O dia virou noite. Ninguém saiu de casa. Um vento forte corria veloz e arrancava o que vinha a sua frente; os cães latiam alto formando um coral desafinado de vozes desesperadas. Granizos enormes estilhaçavam os vidros das janelas e esburacavam telhas de barro. Lá fora o chão ficou escondido debaixo de um tapete branco e fofo.
Mas finalmente o sol venceu a batalha. Parou a chuva, o vento fugiu e o gelo começou a derreter.
Os moradores, aos pouquinhos foram deixando suas casas pra conferir os estragos. Mas era estranho... Cada família que saía, logo retornava e se trancava em casa.
È que lá fora algo inédito acontecera. A vila estava irreconhecível. Panelas, caldeirões, bules.. alúminios esparramavam-se amassados por tudo quanto é canto; até enroscados em galhos de árvores.
È... não dava mais pra esconder. A força da tempestade foi tanta que conseguiu reabrir buracos cavados recentemente em cada moradia.
Todos da vila tinham recebido a visita do "MARTELADOR", destruidor de alumínio. E todos calaram o bico.
Sinhá, que não era nem boba, estava desconfiada; deixou a poeira baixar, criou coragem e foi até a oficina de selas, fechada desde a morte do marido.
O local abandonado era sinistro. Uma camada grossa de poeira cobria tudo, aranhas gigantes se arrastavam nas teias artesanalmente entrelaçadas, ratos espiavam desconfiados e apressados escondiam-se entre as tralhas. Todas as ferramentas desapareceram das prateleiras. Sobre o tamborete descansava um MARTELO muito grande, descomunal e, mesmo no escuro, brilhava feito ouro.
Este fato aconteceu no vilarejo onde meus bisavós moravam que contaram pros meus avós que contaram pro meu pai que contou pra mim.
Acredito muito na minha família. Sei que ninguém mente nem inventa histórias.
Você, acredite se quiser!
(Texto escrito por Hirtis)
O Mestre José Amaro, preso àquele tamborete, batendo selas num movimento único, produzia um som articulado e tão monótono quanto era sua vida. Até dormindo a toada do martelo não o abandonava. Pudera, desde pequeno aprendera o ofício com o pai e nunca mais o largara.
Desanimado, voltava pra casa depois de mais um dia de labuta e já sabia o que o esperava: uma mulher que o aturava e uma filha bem esquisita.
Ia cabisbaixo, solitário... Pôs-se a pensar; engulo todos os dias mediocridade, vaidades, hipocrisias, pessoinhas fúteis e vãs e é agora, ao final da tarde, que tento vomitar todas essas coisas ruins.
Sentiu um vazio na alma. Era melancolia. Estava no escuro, mesmo sendo ainda de dia.
Mas eis que sem mais nem porquê sentiu um DESEJO: sair daquela estrada e caminhar sem rumo nem direção.
È o desejo que move o mundo, é a arma da conquista; é o desejo que sugere mudanças, dilacera o medo, desfaz amarras, desprende raízes fincadas na terra, passa por cima da cautela e do pessimismo. Se há DESEJO há ESPERANÇA.
Será que Amaro despertara do pesadelo que era sua vida? Dizem que é na pausa, no silêncio que nascem pensamentos fantásticos, decisões importantes, tentativas de soluções...
O seleiro não percebera quanto tempo já se passara, mas a noite chegou esfusiante, transbordando alegria. Pintou no céu azul uma lua crescente e estrelas mil que cochichavam um cochicho harmonioso. Amaro, imerso no seu silêncio, ouviu-as e pôs-se a assobiar cauteloso para não errar o compasso e a melodia.
O nosso homem caminhou longe, perdido entre árvores altas e baixas. Sentia o vento macio alisar a pele áspera do rosto maltratado e que desarranjava sua cabeleira farta. Estava feliz.
Sem selas, montou nos flancos do corcel branco e galopou livre, sem rédeas nem amarras. As patas do cavalo troteavam tão ligeiro que, arrancavam galhos, espantavam sabiás, sapateavam no lodo, escalavam montanhas.
Para Amaro era a sensação suprema da liberdade que acalma nossa alma, que nos leva ao sonho da loucura sem enlouquecer, ao sonho da fantasia sem se fantasiar, ao sonho do amor antes de se entregar.
Em tão pouco tempo o seleiro descobriu que a vida não é poupança que quanto mais se guarda mais se tem. A vida é pra ser gasta; quanto mais se vive, mais vida se tem.
A noite passou voando como uma ãguia em direção a sua presa. O sol brilhava forte e poderoso. Sinhá acordou e notou a ausência do marido. Dormiu profundo e nem se deu conta.
Percorreu todos os aposentos da casa e encontrou-o na cadeira de balanço no alpendre. Rosto sereno, leve sorriso, semblante de paz.
E a paz tem sabor de água, sabor de nada, é indefinível. A paz refresca, hidrara, saceia. Não traz úlceras como o café e a paixão, nem provoca ressaca como o ódio e o vinho. Paz é quando o coração bate e a gente nem nota.
O coração do seleiro José Amaro, a gente notava, que no balanço adormecera em paz, para sempre.
(Texto escrito por Hirtis)
Seu Ninim é um dos muitos italianos que fugiram da Europa para o Brasil após as duas grandes guerras mundiais.
Chegou casado com Dona Rosina e como tantos outros imigrantes instalaram-se numa fazenda cafeeira num dos "cafundó" de São Paulo.
Tiveram três filhos homens e depois de muitos anos de trabalho...muito suor... e muita economia compraram alguns alqueires de terra do ex-patrão; após a morte da esposa, ali vive até hoje com o filho mais velho, Toninho, casado com Dona Ivone e mais três netos.
Ao completar oitenta anos, já com a vista cansada e as pernas que não ajudavam mais, foi forçado a deixar a labuta. Foi um momento de decisão bastante difícil, orgulhoso da boa disposição e destreza pra lidar com a roça, as ferramentas e os animais.
Todos os negócios ficaram por conta do filho. Com dinheiro, fazia tempo que seu Ninim não lidava mais. Não conseguiu acompanhar e nem compreender tantas alterações na nossa moeda. Não sabia mais o que custava caro e o que era barato. Só dava conta dos contos de réis e do cruzeiro.
Todos da casa trabalhavam na lavoura do algodão e cultivavam um "cadinho" de arroz e outro de feijão para consumo próprio. E conforme pensamento de seu Ninim, em sítio de italiano "num pode fartá" um bom galinheiro com um galo bem macho "pra dá conta das galinha". Elas têm a obrigação de "botá ovo bão tudo dia", gema bem amarelinha "pra dexá tudo mundo fortinho". E "pra cumê" só os frangos-machos.
O chiqueiro cheinho é de onde sai todo mês um porco graúdo "pra num dexá fartá" carne, linguiça, torresmo e banha. Dá gosto ver as fileiras de linguiça penduradas na cozinha.
No pasto estão algumas cabeças de gado e uma vaca leiteira. Tirar leite da Mimosa seu Ninim não abriu mão e todo dia, por volta das seis horas da manhã, lá vem ele com o caldeirão cheinho de leite.
Ah! Ia me esquecendo da horta. Zequinha, o neto mais velho, cuida dele com muito jeito. Aprendeu tudo com a "nona" Rosina. E dela saem todos os dias "foias verdinha" e tempero pro almoço.
Quer ver o "zoinho" de seu Ninim brilhar? É quando Dona Ivone faz a polenta quentinha "se esparramá" no "fondar", acompanhada de uma fritada de linguiça purinha de carne de porco.
Do tempo de seu Ninim só ficaram dois italianos, seu Pedro e seu Gijo, moradores de Iberê, cidadezinha próxima do sítio, não dá mais que oito quilômetros de distância.
Iberê não foi pra frente, não cresceu como se esperava, rodeada que era de fazendas cafeeiras.
O café prometia fartura e progresso, mas não durou muito e foi se acabando. A terra já não era mais tão fértil, as despesas para o cultivo eram altas, os juros bancários elevados, sem contar que o cafezal só produz frutos a partir do quinto ano de seu plantio. E durante todos esses anos o agricultor ia se virando como podia.
Os italianos primeiros foram morrendo e a grande maioria dos descendentes se deslocaram pra cidade grande.
Iberê ficou pra trás com a igreja matriz no centro, rodeada por um jardim bem cuidado, a prefeitura, o correio, a CEF, um comércio bem simples e a casa lotérica, onde todos faziam a sua "Fezinha". Até seu Ninim.
Quase toda semana seu Ninim pegava sua charrete velhinha atrelada à égua Pampa, sua xodó, e tocava até Iberê bater papo com os dois amigos. Passavam horas recordando os bons e velhos tempos, bebericando aquela "pinguinha braba", a "mió" do boteco de seu Osório.
Naquele dia seu Ninim não chegava em casa. A família toda preocupada estava de prontidão no terreiro e Toninho já estava com o cavalo atrelado. Mas eis que lá na virada da curva aparecem seu Ninim e a égua.
Ela caminhava lentamente, mais que de costume, respirava com dificuldade, parava um pouquinho, tomava fôlego, parecia que não ia chegar. Mas chegou...
Pudera! A carroceria estava carregada de caixas empilhadas, tamanhos diversos. Eram muitas, nem dava pra contar...
Seu ninim "apeou" tranquilo, não deu explicações nem permitiu perguntas e ordenou que as caixas fossem levadas pra dentro de casa.
Estava cansado e foi dormir bem cedo.
Os familiares sem saber de nada passaram quase a noite inteira contando dinheiro. E eram só notas de cem reais.
Amanheceu.
O italiano chamou os familiares e falou calmamente diante da grande surpresa de todos:
__Toninho, vá até Iberê, passe no banco e traga as "otras caxas que ficaro lá. Num é que na semana passada, eu acertei os número da Sena?"
(Texto criado por Hirtis)
Era domingo. Brincavam na fazenda do vovô um rapazinho arretado que dizia não ter medo de nada e dois primos seus medrosos de causar dó.
Naquela semana chegara no pasto, trazido lá das bandas das Minas Gerais, um cavalo orgulhoso e selvagem. Se alguém dele se aproximava, dava coices e, apoiado nas patas traseiras, quase sentado, empinava as patas dianteiras bem lá pro alto impondo medo e respeito. Vovô até já contratara um peão pra domá-lo.
Ninguém ousava chegar perto. Ninguém não... Foi desafiado pelo menino corajoso e sem juízo. Como quem não queria nada foi se aproximando do animal. Devagarinho... bem devagarinho.
Olhos fixos nos olhos da fera. O animal foi se acomodando... se acomodando... Parecia hipnotizado.
Num impulso violento e rápido o menino saltou, enlaçou as pernas nas ancas do animal e cravou-lhe na pele o salto da botina velha e carcomida pelo uso e pelo tempo.
O animal nervoso deu um pinote mais alto que todos os outros e saiu galopando desenfreado pasto afora. Fora desafiado e não gostara disso nem um pouco.
Entrou no brejo, escorregou no barro, embrenhou-se no mato, saltou sobre montes de galhos secos, fez de tudo um pouco. Não conseguiu desvencilhar-se da companhia indesejada e intrusa. Não podia aceitar esse desafio.
Nessa corrida maluca surgiu a frente um obstáculo maior que todos, uma cerca bem alta feita de arame farpado. Parecia que não ia dar tempo; o cavalo não exitou, voou alto feito um gavião e caiu sobre as quatro patas no outro lado do terreno. Sacolejou pra direita, pra esquerda, relinchou bem alto feito um Titã e vitorioso desapareceu no meio do mato.
O menino ficou estendido no chão sangrando muito.
Os outros dois meninos tinham certeza de que o primo estva morto. Eles não tinham tempo pra perder. Carregarram o falecido até a casa grande da fazenda, espiaram pela porta principal e não avistaram ninguém. Abandonaram o corpo inerte no primeiro quarto da frente e fugiram. Seja lá o que Deus quiser.
Morrer o menino valente não morreu. Senão eu não estaria aqui pra contar esse "causo" que aconteceu com o meu pai.
(texto criado por Hirtis)